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Brasil tem dívida histórica com Freire.

Por Fabio Campos, Paulo Blikstein, Lívia Macedo, Cassia Fernandez, Raquel Coelho e Tatiana Hochgreb-Hägele.


Ilustração: Jorge Cerqueira / @desenhosdequinta


Ontem, 19 de Setembro de 2021, o mundo comemorou o centenário de Paulo Freire, um dos maiores filósofos e educadores da história. Sua Pedagogia do Oprimido é nada menos que o terceiro livro mais citado da história das ciências sociais -- na frente de obras de Freud e Foucault. Freire é o brasileiro mais traduzido (40 idiomas) e o mais premiado (35 doutorados honoris causa) da nossa história recente.


Freire propôs algo bastante concreto: a educação deve levar em conta a vida, o interesse, a realidade e a cultura dos alunos. Para além de sua filosofia educacional, seu método de alfabetização é também absolutamente empírico: em 1963 conseguiu alfabetizar 300 adultos em apenas 40 horas na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, sob o olhar de observadores nacionais e internacionais.


Mas por que o olhar freireano para a aprendizagem continua tão inovador e necessário hoje quanto nos anos 60? Paulo Freire mostrou que uma educação humanista incentiva os alunos a perceberem criticamente o mundo e desenvolver um olhar solidário entre indivíduos. A história, diz Freire, é o lugar de possibilidades, não de inevitabilidades. Pensamento crítico, para ele, não é simplesmente “criticar o mundo”, é arregaçar as mangas e refazê-lo. E isso é mais do que nunca necessário em um planeta que precisa, por exemplo, substituir combustíveis fósseis, vencer uma pandemia e resolver desafios sociais e econômicos que muitas vezes parecem insuperáveis.


O Brasil, entretanto, tem décadas de faltas cometidas contra Freire. Em 1964, no auge de seus esforços de alfabetização de jovens e adultos, o trabalho de Freire incomodou os generais, que o tacharam de subversivo. Freire foi preso e exilado pelo regime militar e viveu 16 anos fora de sua terra natal. Seu pecado? Querer alfabetizar os brasileiros mais humildes, e entender que ensinar um indivíduo a ler é dar-lhe a palavra de maneira integral; é dar voz a quem vive numa cultura de silêncio e aceitação.


Atitude semelhante se viu em 1975 quando Freire recebeu o maior prêmio da UNESCO por seus esforços de alfabetização: durante a cerimônia, no Irã, os representantes do governo militar do Brasil deixaram o auditório para não presenciar a premiação do professor “subversivo”.


Desde os últimos meses de 2018, o atual governo federal iniciou uma cruzada de desinformação contra Paulo Freire. Como consequência, muitos brasileiros hoje atribuem a Freire toda e cada eventual mazela da educação brasileira, sem jamais terem lido qualquer texto dele. Na verdade, a educação Freireana jamais foi aplicada no Brasil em larga escala. O que fazemos, infelizmente, é ainda a chamada educação "bancária", de depósito automático de conhecimento sem respeitar os saberes do educando.


É preciso compensar a dívida histórica que o Brasil tem com Paulo Freire. Mais do que nunca, é hora de reler e praticar a filosofia de Freire na escola brasileira, garantindo que o patrono de nossa educação não seja expurgado mas celebrado intensamente. Mas Freire nunca quis ser um fóssil ou um ídolo: queria ser reinventado, questionado, recriado. E é isso que devemos começar a fazer, assim, freireanamente.


Que venham mais cem anos, Paulo.


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* Fabio Campos (Universidade de Nova York), Paulo Blikstein (Universidade de Columbia), Lívia Macedo (Universidade de Columbia), Cassia Fernandez (Universidade de São Paulo), Tatiana Hochgreb-Hägele (Universidade de Stanford), e Raquel Coelho (Universidade de Stanford) são educadores e pesquisadores brasileiros e fazem parte do grupo Ciências da Aprendizagem Brasil, uma iniciativa do Transformative Learning Technologies Lab da Universidade de Columbia (EUA).


Artigo publicado originalmente O Globo em 20 de Setembro de 2021



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